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Link para reflexão publicada pelo jornalista e diretor Nelson de Sá em seu Blog Cacilda

Link para imagens registradas pela artista Lenise Pinheiro em seu Blog Cacilda

Link para entrevista com Jean-Luc Lagarce realizada em 1985

Link para reportagem realizada em 1986 com Jean-Luc Lagarce na Biblioteca do Centro Cultural de Besançon no qual ensaiaria Music-Hall três anos depois

Link para entrevista com Jean-Luc Lagarce realizada em 1995 dois meses antes da morte aos 38 anos

 

Por mais de trinta anos tenho sido extremamente cuidadosa para nunca ficar sozinha no escuro Não poderia suportar isso Entraria em pânico Por causa disso sempre carrego velas comigo Especialmente quando viajo ao exterior ou a outros continentes Nunca sem minhas velas Jamais Por causa da eletricidade Nunca se sabe E quando criança quando ficava deitada no meu berço com todas aquelas grades Vocês sabem Aquelas grades Então saía e abria a porta da cozinha só um pouquinho para que um pouquinho de luz pudesse entrar Mas quem é que entrava A minha babá E aí ela me batia E fechava a porta Aí saía de novo e abria a porta e ela entrava e me batia E então nós ficávamos assim Vocês sabem Saía e abria a porta e ela entrava e me batia Pois então prefiro apanhar do que ficar sozinha no escuro E nunca sem minhas velas Jamais Por causa da eletricidade Nunca se sabe Quanto a mim Nunca Quanto a mim Nunca Jamais

 

relato acima da atriz e cantora Mechthild Grossmann em cena na qual confidenciavam à platéia suas experiências com o medo do escuro no espetáculo 1980 criado por Pina Bausch e assistido por Jean-Luc Lagarce como ele próprio fez questão de registrar em seu diário na noite de 5 julho 1989 e portanto exatos dois meses antes de começar os ensaios de Music-Hall

e três anos antes em 1 julho 1986 já havia anotado o seguinte

No teatro semana passada em Paris assisti a duas coreografias de Pina Bausch Os Sete Pecados Capitais adaptado do musical de Brecht e Kurt Weill e Não tenham medo com textos de Brecht e músicas de Weill retirados de diversas obras Não somente é magnífico Os movimentos em grupo a dor o sofrimento Mas também há um humor decepante A cantora em Os Sete Pecados Capitais era realmente magnífica

 

Outra influência seminal surgiu com a poética de Samuel Beckett

 

A personagem Winnie de Happy Days forneceu um modelo para a concepção da Menina de Music-Hall e seu assistente de vida-e-palco Willie inspirou a cartilha dos dois Meninos

 

Em 1979 aos 22 anos Lagarce dirigiu três peças curtas de Samuel Beckett Not I e Footfalls e Come and Go

 

Em sua tese Teatro e Poder no Ocidente aprofundou as relações e descobertas ocorridas nas suas encenações desses três big-bangs

 

Lagarce também assinou algumas críticas de cinema publicadas sob o pseudônimo Paul Dasthré no jornal Libération e após assistir aos filmes Sacrifício e Solaris de Andrei Tarkovsky confessou o seguinte

 

É isso acima de tudo o que desejo conseguir escrever

 

Em fevereiro de 1994 ele chegou a enviar seu vídeo intitulado Portrait para o Festival do Minuto realizado aqui em São Paulo e saiu vencedor da competição internacional

 

Um memorial que teve seu início crucial aos 31 anos de idade quando se descobriu soropositivo e marcou o seguinte em 23 julho 1988

 

A partir dessa manhã enxergo as coisas de outra forma Provável não sei Me tornar ainda mais solitário se é que isso é possível Não acreditar em mais nada Não acreditar em nada Ou melhor talvez fingir Continuar fingindo belamente Sorrir Afetadamente aparentar o espirituoso E acabar com a ameaça da morte Pois ainda assim Como o último representante de um dandismo lento e desenvolto

 

12 junho 1992

Uma idéia idiota mas como ela ressurge o tempo tempo e ela reaparece toda vez que estou saindo e ela passa pela minha cabeça nos sonhos então vamos admitir A idéia é bem simples mas muito muito reconfortante muito alegre É isso que queria dizer Muito alegre sim a idéia de que vou retornar de que terei uma outra vida após esta e na qual serei o mesmo mas terei mais charme caminharei pelas ruas com mais firmeza na qual serei um homem livre e muito feliz A idéia freqüente maquinal << É isso que farei quando regressar >> É besta Bem pouco filosófica Muito alegre reconfortante mas nem estou tão agitado assim e ela está perfeitamente ancorada no meu espírito

11 junho 1994

Acordei com dores Fui dormir tarde quase meia-noite pois não encontrava razão para ir dormir e na minha cama não havia sono e aí parti numa dessas << histórias imundas >> essas novelas mui formosas que às vezes aparecem a nosso contragosto elas nos servem como um erotismo definitivo Na maior parte do tempo como o desejo está morto morto e enterrado essa novela esse longo delírio de uma ternura impossível enfim consigo apagá-lo destrui-lo e dormir mas dessa vez não consegui A noite inteira foi isso entre o sono e a vigília Ou ao menos a lembrança que tive ao me levantar

07 junho 1994

Estranho esse estado Como se não quisesse mais estar com ninguém e como se só me confrontasse com os outros quando extremamente necessário Uma doçura nostálgica e suicida também e não outro sentimento que se debruça sobre mim O prazer um pouco mórbido que tive nessas manhãs Levanto bem cedo para tomar café ler livros nessas noites olhando fotografias preparando espetáculos que imaginamos tão bem << encadeados >> na cabeça Fiz ontem portanto somente por necessidade duas caminhadas por Paris e talvez o Mundo as pessoas o Mundo suavemente me dá medo O verão será solitário é provável Será suave mas ele poderá me ser fatal

06 junho 1990

Falecimento do ator Rex Harisson Só percebo as mortes nem sei o porquê óbvio os nascimentos de pessoas famosas isso jamais poderemos ficar sabendo

31 dezembro 1994

No jornal Libération na seção da retrospectiva << teatral >> do ano 1994 entre os espetáculos a serem lembrados e os falecimentos dos famosos está escrito que quanto a mim estou vivo Isso me fez rir Como uma provação como uma mensagem << boa e gentil >> do jornal

28 maio 1990

Pois li hoje no jornal Le Monde por exemplo um artigo sobre um encontro entre jovens encenadores realizado em Dijon com Éric Da Silva e Chantal Morel e François Tanguy e para o qual havia sido convidado mas << sabiam que não poderia ir >> acredito E isso não é novidade Que isso se deva ao meu << atipismo >> tão frequentemente citado Às vezes como uma abordagem extrema ou como um bonito elogio Esse << atipismo >> talvez seja a raridade e a originalidade que talvez um dia você possa pouco a pouco descobrir e apreciar << por aquilo que você é >> Poderia ser também a constatação de que você não é << nada >> na frente dos outros e que não há interesse algum a longo prazo

21 maio 1987

Enormes dificuldades financeiras para o nosso Théâtre de la Roulotte Estamos à beira da falência na cessão de pagamentos Alguns na secretaria da cultura pedem a falência Mas com a retomada das atividades para o ano que vem Coisa que recuso absolutamente E quanto a isso não vou ceder No fundo o problema de sempre Lagarce e sua companhia chinfrim nos enchem o saco deixemos eles morrerem Mas não haveria nenhuma outra companhia teatral aqui no nosso estado do Franco-Condado Um fracasso artístico Não sei Estou triste como nunca Adoraria chorar muito mas não consigo

17 maio 1994

O dia de ontem foi tão estranho Pois à noite a apresentação foi excepcionalmente boa tão bem encadeada e aí pouco a pouco no restaurante estávamos em várias mesas uma profunda tristeza parecia tomar conta de uns e outros Élizabeth e Py se divertiam mas não era de verdade Irina havia chorado Grinfeld parecia estar numa cólera escura e acreditei mesmo que de repente bem tarde na noite François iria se afundar nas lágrimas

06 setembro 1989

Hélène Surgère conta que a única meta da sua vida foi se tornar bailarina e que ela não conseguiu - aos dezoito anos foi obrigada a abandonar por razões de saúde - ainda hoje se arrepende Ela está sempre fazendo aulas - aulas para iniciantes pois ela não consegue ir adiante - ela quase nem se olha no espelho seu corpo não quer mais << isso aí não serve pra nada >> mas ela persegue esse sonho

16 maio 1993

O que fascina os outros e o que me espanta é essa calma O fato de saber que vamos morrer que de uma certa maneira já estamos mortos e mesmo assim nos ver continuar não gritar não muito não suplicar ou insultar a deus É isso que os fascina Por que continuar a rasurar a enegrecer papéis a tentar recontar uma ou duas histórias Eles me olham e se espantam Nós fazemos parte do Terceiro Grupo Há os vivos e os mortos e nós aqui que estamos perdidos e que continuamos Eles tentam saber compreender imaginar Eles têm medo por mim e por eles mesmos Eles esperam que a gente lhes dê uma solução O que os espanta é a tal ausência no fundo de uma metafísica simbólica



Escrito por jqz às 15h20





LA FILLE   LE PREMIER BOY   LE DEUXIÈME BOY

os nomes dos personagens

são seres se oferecendo na arte e assim não se trata apenas de uma cantora mas de uma Menina e não somente de dois assistentes mas de dois Meninos e isso ressalta seu jogo nostálgico pois o trabalho de cada show-woman-show-man é preservar e oferecer a sua infância o seu sorriso e portanto esses nomes imprimem a função lúdica de eternos moleques em contraste com a precária realidade

DE TEMPS EN TEMPS

é o título da canção que serviu como ponto de partida para a escritura da peça

uma melodia pungente composta por Paul Misraki e Andre Hornez e eternizada na voz de Joséphine Baker a mítica dançarina neta de escravos africanos que assegurou a potência do music-hall que mais tarde seria escravizado pela própria indústria

a letra da canção reflete o lamento de uma amante abandonada mas pode ser ouvida como um último pedido do Teatro aos artistas aos espectadores para que não nos esqueçamos pois é preciso fazer amor com ele e assim espantar as teorizações que só afastam a nossa carne do coração

afinal de contas o teatro -a vida de todo mundo- é um eterno poema ereto

não digam que vocês me adoram

mas façam amor comigo

uma palavra de amor é incolor

mas uma trepada é eloquente

não me escrevam longos poemas

não me contem suas comoções

para provar o quanto me amam

mas sim de tempos em tempos me beijem

e caso me escrevam não digam que vocês me adoram

mas sim vivam em mim de tempos em tempos

pois muitas vezes o coração ignora aquilo que nossas mãos frequentemente escrevem

não deixem morrer nossos sonhos

lembrem-se de tempos em tempos

 

e a pergunta que se faz é

o que realmente ainda nos resta oferecer aos espectadores

o que realmente ainda nos resta ofere-ser uns aos outros

a urgência de uma memória intraduzível

ou o clímax de uma emoção intransferível

ou a reflexão sobre a nossa existência i-n-f-i-n-i-t-a

a partir dessa indagação e tendo como metonímia o esqueleto do teatro-de-entretenimento esse açougue-music-hall no qual somos convocados para a missão de abastecer vida na vida de inúmeros desconhecidos

é preciso que a iluminação concebida para o espetáculo seja o próprio camelo atravessando o buraco da agulha

paralelamente vale notar o quanto Lagarce se concentra no uso do intransitivo

o verbo é sempre perpétuo e está sempre acima da conjugação-prisão-temporal

ressoa a mesma descoberta de Gertrude Stein

no caso do inglês isso se dá no uso do gerúndio eating human-being seeing-is-believing home-coming thanks-giving some-thing

mas no francês o gerúndio não possui essa mesma natureza é preciso escrever en-train-de-parler en-train-de-vivre que significa estar-no-ato-de-falar estar-no-ato-de-viver

não há como escrever simplesmente falando-vivendo e no inglês o uso do intransitivo to-speak to-live tem uma conotação de algo a ser projetado no futuro

ao contrário do português quando lemos ler-morder-arder pensamos em uma ação contínua-presente

 

VÍDEOS

documentário em cinco partes de Joséphine Baker

 

a alma em pleno ringue 

 

como dar uma volta completa

 

a coreografia

 

às vezes jogam garfos e gatos mortos

 

Hélène Surgère foi a Menina dirigida por lagarce 

 

a humorista fascínio de alagar-se

 

e por aqui foi assim e assim e assim e assim que tudo começou semanas antes do convite

marcia ela dança

sobre o cetim do raio

isopor aos seus pés

marcia dança com pernas afiadas tesouras

são duas flechas que nos dão idéias sensações

bela em cena e bela na vida real

vê-la dançando me transforma em excitada

moretto como a sua boca é enorme quando você sorri

e quando você ri eu rio também

você ama tanto a vida

ué qual razão então para este frio que a gente sente em você

mas é claro é a morte

que te assassinou

é a morte que te consumiu

agora você virou cinzas

a morte é como uma coisa impossível

e mesmo para você que é forte como um foguete

e mesmo para você que é a própria vida

é a morte que te levou

marcia dança meio chinesa

o calor nos movimentos dos ombros

estática como um hieróglifo inca de uma ópera

com a cabeça ela também dança super bem

e o seu rosto dança com todo o resto

ela investigava uma nova maneira de dançar

e ela a inventou

é ela o gafanhoto

a sereia com dores de amores

a dançarina na flanela

ou um cartaz

 

 

pois é

poiesis

é p.s.



Escrito por jqz às 15h20



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