Abra cadáver Fecha cortina Abracadabra estreia contínua A peça abracadabra do ator e diretor luiz päetow estreou em são paulo no teatro sesc-anchieta em janeiro de 2010 e segue cegando próximas temporadas Um espetáculo de hipnose Um espetáculo sem sinopse Apenas uma presença dialogando com os limites do nosso raciocínio encarcerado no majestoso teatro dos nossos corpos e da sua imaginação Diz-posto a atravessar a zona que separa o palco-vida da coxia-morte um ator se arrisca em queda livre na ausência total de suporte ficcional para descobrir juntamente com o espectador o instante essencial antes de sairmos de cena A dramaturgia se renova a cada apresentação com outros caminhos sendo tomados dentre os vários fragmentos de textos que buscam mapear os atalhos e os enganos do nosso pensamento contemporâneo As palavras deixam de ser as bolinhas de vidro escapadas do colar quebrado da anedota Tornam-se oferenda e alegoria Toda palavra é réquiem e todo orador é o povo inteiro seus mortos seus excluídos seus heróis e seus espectadores Ela corre de boca em boca como um fogo salubre na floresta Não encenar nada mais Nada mais que isso Uma única palavra mas qual
A seguir uma reflexão do produtor cultural ricardo muniz fernandes após assistir a uma das apresentações Algo à deriva, como se estivesse entrando em um navio abandonado. Embora todos soubéssemos estar em um teatro vazio e escuro, para alguns demasiadamente conhecido, (não como a palma da mão, pois quase ninguém conhece em profundidade as palmas de suas mãos) eu me defrontava com medo, um medo que resiste, persiste e permanece ainda dentro. Era somente meu, ou também dos outros que iam comigo? Era um medo atávico. Colado. Medo resistente da deriva, e das trevas. Nos espalhamos pela poltronas da plateia e ficamos esperando o início do espetáculo. As regras do teatro já tinham sido quebradas, não entramos com a plateia acesa e escolhemos os lugares. As luzes da plateia não se apagaram e se acenderam as do palco. Nada disso aconteceu, era o escuro do início ao fim. Escuridão. No início, havia uma caneta a laser, complemento fundamental de palestra e esclarecimentos, vagando também perdida naquele iniciado desmonte de regras. Por alguns segundos ela ainda resistiu, mas logo desapareceu na ausência de sentido (depois ela volta e poderia ser a mira de uma atirador de elite, o suspense eficaz e barato, entre o tiro e a morte nos filmes de Holywood). Os que tinham lanterna não as acenderam naquele momento. Eu estava ali, no escuro, como entrado em plena metamorfose. Ainda não era a coisa, fosse ela de Kafka ou do banalíssimo Stephen King, mas estava em transformação e metamorfose. Os outros também estavam em mutação? Uma luz e uma voz no fundo do palco, repetiam um texto sobre o que? Era algo sobre estar, contar histórias... um texto para mim desconhecido... e isso me deixava mais ainda mareado... e aquilo dito ali nas luzes fracas daquelas lanternas, no black-out quase completo do teatro (no canto esquerdo havia uma fresta de luz que era o abracadabra de escape, o ponto de fuga). O ator, ou “a coisa” ali escondido naquela possibilidade de ascensão era meu igual, meu irmão, uma coisa, o inominável, Malone, eu e também os outros ali presentes? E o texto jorrava, em golfadas, sem a dramaticidade, e sem a expressividade e a emoção do óbvio teatro, mas era algo entrecortado, como ondas, a respiração presa dos pesadelos dos quais não conseguimos acordar. E era também clownesco, ridículo, lírico, conceitual, não me deixando estabelecer um sentido único e definitivo, um falar que vacilava e me angustiava, me deixando à plena deriva. Na beira daquelas escadas, como ao lado de um enorme navio encalhado, - os grandes teatros soltos pelas cidades do mundo não são navios encalhados? - convidado, mas também clandestino. Era também aquele do qual falava o texto, o que não queria estar ali, no esforço da “coisa”, para levantar, andar pelas paredes, falar e contar histórias. Já era quase uma ”coisa”. O esforço de ver, o esforço de entender era muito além do entendimento fácil do cotidiano e das redes. O texto, sua extensão, seu acender e apagar de luzes, balanço entre compreensão e distração, sua repetição e paralisia no próprio movimento e expressão na beira daquela escada era o tempo calculado para nos tornarmos, como o ator, completos “issos”. Nós éramos olhos na escuridão, e éramos a própria escuridão. Eu era as trevas e seu coração. Os outros também eram? Éramos também espectadores e aquilo era teatro, e nesse jogo, pega-pega “asmático” de significação, não havia possibilidade de fuga. Estavamos na cova, na toca da fera, sendo presas e também predadores. Eram tantos os pensamentos que me atravessavam e ricocheteavam no espaço imensurável de um palco vazio. Era uma profusão de fantasmas, e uma infinidade de possibilidades. Era como o teatro em sua dinâmica maior, a paralisia daquele segundo antes do início de uma performance onde tudo está armado e só nos resta a vontade e necessidade de continuar ou de apagar as luzes, fugir do teatro e deixar o nada acontecer. Uma fração de segundo e uma eternidade, o infinito neste mínimo, neste tempo e qualidade... eu entrevia e me deixava à deriva com Merleau-Ponty na sua última obra o Visível e o Invisível, com Beckett nos seus tantos textos lidos e esquecidos e seus poucos filmes vistos, com Marlon Brando em Apocalipse Now e Conrad, na cegueira de Pina Bausch em E La Nave Va, e até mesmo na surpresa possível de um rato ou fantasma atravessando o vazio do palco. Eu estava ali misturando o meu pensamento e a minha pouca visão. Experimentando o pensar valendo mais do que a coisa vista ou do que a própria visão
APRESENTAÇÃO NO SESC CAMPINAS
APRESENTAÇÕES ESPECIAIS NA VIRADA CULTURAL
CARTAZ DA PRIMEIRA TEMPORADA NO TEATRO SESC-ANCHIETA
Por mais de trinta anos tenho sido extremamente cuidadosa para nunca ficar sozinha no escuro Não poderia suportar isso Entraria em pânico Por causa disso sempre carrego velas comigo Especialmente quando viajo ao exterior ou a outros continentes Nunca sem minhas velas Jamais Por causa da eletricidade Nunca se sabe E quando criança quando ficava deitada no meu berço com todas aquelas grades Vocês sabem Aquelas grades Então saía e abria a porta da cozinha só um pouquinho para que um pouquinho de luz pudesse entrar Mas quem é que entrava A minha babá E aí ela me batia E fechava a porta Aí saía de novo e abria a porta e ela entrava e me batia E então nós ficávamos assim Vocês sabem Saía e abria a porta e ela entrava e me batia Pois então prefiro apanhar do que ficar sozinha no escuro E nunca sem minhas velas Jamais Por causa da eletricidade Nunca se sabe Quanto a mim Nunca Quanto a mim Nunca Jamais
relato acima da atriz e cantora Mechthild Grossmann em cena na qual confidenciavam à plateia suas experiências com o medo do escuro no espetáculo 1980 criado por Pina Bausch e assistido por Jean-Luc Lagarce como ele próprio fez questão de registrar em seu diário na noite de 5 julho 1989 e portanto exatos dois meses antes de começar o ensaio de Music-Hall
e três anos antes em 1 julho 1986 já havia anotado o seguinte
No teatro semana passada em Paris assisti a duas coreografias de Pina Bausch Os Sete Pecados Capitais adaptado do musical de Brecht e Kurt Weill e Não tenham medo com textos de Brecht e músicas de Weill retirados de diversas obras Não somente é magnífico Os movimentos em grupo a dor o sofrimento Mas também há um humor decepante A cantora em Os Sete Pecados Capitais era realmente magnífica
Outra influência seminal surgiu com a poética de Samuel Beckett
A personagem Winnie de Happy Days forneceu um modelo para a concepção da Menina de Music-Hall e seu assistente de vida-e-palco Willie inspirou a cartilha dos dois Meninos
Em 1979 aos 22 anos Lagarce dirigiu três peças curtas de Samuel Beckett Not I e Footfalls e Come and Go
Em sua tese Teatro e Poder no Ocidente aprofundou as relações e descobertas ocorridas nas suas encenações desses três big-bangs
Lagarce também assinou algumas críticas de cinema publicadas sob o pseudônimo Paul Dasthré no jornal Libération e após assistir aos filmes Sacrifício e Solaris de Andrei Tarkovsky confessou o seguinte
É isso acima de tudo o que desejo conseguir escrever
Em fevereiro de 1994 ele chegou a enviar seu vídeo intitulado Portrait para o Festival do Minuto realizado aqui em São Paulo e saiu vencedor da competição internacional
Um memorial que teve seu início crucial aos 31 anos de idade quando se descobriu soropositivo e marcou o seguinte em 23 julho 1988
A partir dessa manhã enxergo as coisas de outra forma Provável não sei Me tornar ainda mais solitário se é que isso é possível Não acreditar em mais nada Não acreditar em nada Ou melhor talvez fingir Continuar fingindo belamente Sorrir Afetadamente aparentar o espirituoso E acabar com a ameaça da morte Pois ainda assim Como o último representante de um dandismo lento e desenvolto
12 junho 1992
Uma ideia idiota mas como ela ressurge o tempo tempo e ela reaparece toda vez que estou saindo e ela passa pela minha cabeça nos sonhos então vamos admitir A ideia é bem simples mas muito muito reconfortante muito alegre É isso que queria dizer Muito alegre sim a ideia de que vou retornar de que terei uma outra vida após esta e na qual serei o mesmo mas terei mais charme caminharei pelas ruas com mais firmeza na qual serei um homem livre e muito feliz A ideia frequente maquinal << É isso que farei quando regressar >> É besta Bem pouco filosófica Muito alegre reconfortante mas nem estou tão agitado assim e ela está perfeitamente ancorada no meu espírito
11 junho 1994
Acordei com dores Fui dormir tarde quase meia-noite pois não encontrava razão para ir dormir e na minha cama não havia sono e aí parti numa dessas << histórias imundas >> essas novelas mui formosas que às vezes aparecem a nosso contragosto elas nos servem como um erotismo definitivo Na maior parte do tempo como o desejo está morto morto e enterrado essa novela esse longo delírio de uma ternura impossível enfim consigo apagá-lo destrui-lo e dormir mas dessa vez não consegui A noite inteira foi isso entre o sono e a vigília Ou ao menos a lembrança que tive ao me levantar
07 junho 1994
Estranho esse estado Como se não quisesse mais estar com ninguém e como se só me confrontasse com os outros quando extremamente necessário Uma doçura nostálgica e suicida também e não outro sentimento que se debruça sobre mim O prazer um pouco mórbido que tive nessas manhãs Levanto bem cedo para tomar café ler livros nessas noites olhando fotografias preparando espetáculos que imaginamos tão bem << encadeados >> na cabeça Fiz ontem portanto somente por necessidade duas caminhadas por Paris e talvez o Mundo as pessoas o Mundo suavemente me dá medo O verão será solitário é provável Será suave mas ele poderá me ser fatal
06 junho 1990
Falecimento do ator Rex Harisson Só percebo as mortes nem sei o porquê óbvio os nascimentos de pessoas famosas isso jamais poderemos ficar sabendo
31 dezembro 1994
No jornal Libération na seção da retrospectiva << teatral >> do ano 1994 entre os espetáculos a serem lembrados e os falecimentos dos famosos está escrito que quanto a mim estou vivo Isso me fez rir Como uma provação como uma mensagem << boa e gentil >> do jornal
28 maio 1990
Pois li hoje no jornal Le Monde por exemplo um artigo sobre um encontro entre jovens encenadores realizado em Dijon com Éric Da Silva e Chantal Morel e François Tanguy e para o qual havia sido convidado mas << sabiam que não poderia ir >> acredito E isso não é novidade Que isso se deva ao meu << atipismo >> tão frequentemente citado Às vezes como uma abordagem extrema ou como um bonito elogio Esse << atipismo >> talvez seja a raridade e a originalidade que talvez um dia você possa pouco a pouco descobrir e apreciar << por aquilo que você é >> Poderia ser também a constatação de que você não é << nada >> na frente dos outros e que não há interesse algum a longo prazo
21 maio 1987
Enormes dificuldades financeiras para o nosso Théâtre de la Roulotte Estamos à beira da falência na cessão de pagamentos Alguns na secretaria da cultura pedem a falência Mas com a retomada das atividades para o ano que vem Coisa que recuso absolutamente E quanto a isso não vou ceder No fundo o problema de sempre Lagarce e sua companhia chinfrim nos enchem o saco deixemos eles morrerem Mas não haveria nenhuma outra companhia teatral aqui no nosso estado do Franco-Condado Um fracasso artístico Não sei Estou triste como nunca Adoraria chorar muito mas não consigo
17 maio 1994
O dia de ontem foi tão estranho Pois à noite a apresentação foi excepcionalmente boa tão bem encadeada e aí pouco a pouco no restaurante estávamos em várias mesas uma profunda tristeza parecia tomar conta de uns e outros Élizabeth e Py se divertiam mas não era de verdade Irina havia chorado Grinfeld parecia estar numa cólera escura e acreditei mesmo que de repente bem tarde na noite François iria se afundar nas lágrimas
06 setembro 1989
Hélène Surgère conta que a única meta da sua vida foi se tornar bailarina e que ela não conseguiu - aos dezoito anos foi obrigada a abandonar por razões de saúde - ainda hoje se arrepende Ela está sempre fazendo aulas - aulas para iniciantes pois ela não consegue ir adiante - ela quase nem se olha no espelho seu corpo não quer mais << isso aí não serve pra nada >> mas ela persegue esse sonho
05 março 1994
Sou como um animal uma máquina sem desejo obcecada pela própria sobrevivência Preciso me segurar até terçafeira
11 dezembro 1993
Do outro lado do planeta lá embaixo no Brasil - recebo um fax - há pessoas que chegam a pensar que sou um verdadeiro pequeno gênio do vídeo Ontem à noite aqui havia adolescentes num debate e ficavam me olhando como se fosse um grande artista << simples >> límpido À noite no hotel sou uma taça de ossos que se enerva contra o próprio corpo
08 dezembro 1993
Afundado em << tudo isso >> mas ainda assim acabo de ganhar em São Paulo o concurso do filme-vídeo do minuto com meu pequeno filme Ôba ganhei passagens de ida-volta Paris-Brasil entre janeiro e fevereiro na data que preferir Minhas taxas de sangue e eu vamos juntos conhecer o tal país
06 dezembro 1993
Às 6.30 definitivamente não consigo mais dormir Sou um pobre homem Se não tivesse aids já teria sucumbido provavelmente à loucura à psiquiatria paranóica a mais aterradora
03 novembro 1989
Últimas apresentações de Music-Hall nas cidades de Besançon e Montbéliard Pela primeira vez não houve aquele gosto de cinzas Mas claro houve a irritação dos << debochados >> mas também não era isso mesmo que a gente já esperava
12 agosto 1989
Leitura da peça Music-Hall para uma emissão da Rádio France Culture Dessa vez é Judith Magre quem grava o papel da Menina Acredito que a peça << funciona >> bem E quanto a mim me pedem para gravar as rubricas Nisso parece que funciono
Escrito por jqz às 15h20
16 maio 1993
O que fascina os outros e o que me espanta é essa calma O fato de saber que vamos morrer que de uma certa maneira já estamos mortos e mesmo assim nos ver continuar não gritar não muito não suplicar ou insultar a deus É isso que os fascina Por que continuar a rasurar a enegrecer papéis a tentar recontar uma ou duas histórias Eles me olham e se espantam Nós fazemos parte do Terceiro Grupo Há os vivos e os mortos e nós aqui que estamos perdidos e que continuamos Eles tentam saber compreender imaginar Eles têm medo por mim e por eles mesmos Eles esperam que a gente lhes dê uma solução O que os espanta é a tal ausência no fundo de uma metafísica simbólica
LA FILLE LE PREMIER BOY LE DEUXIÈME BOY
os nomes dos personagens
são seres se oferecendo na arte e assim não se trata apenas de uma cantora mas de uma Menina e não somente de dois assistentes mas de dois Meninos e isso ressalta seu jogo nostálgico pois o trabalho de cada show-woman-show-man é preservar e oferecer a sua infância o seu sorriso e portanto esses nomes imprimem a função lúdica de eternos moleques em contraste com a precária realidade
DE TEMPS EN TEMPS
é o título da canção que serviu como ponto de partida para a escritura da peça
uma melodia pungente composta por Paul Misraki e Andre Hornez e eternizada na voz de Joséphine Baker a mítica dançarina neta de escravos africanos que assegurou a potência do music-hall que mais tarde seria escravizado pela própria indústria
a letra da canção reflete o lamento de uma amante abandonada mas pode ser ouvida como um último pedido do Teatro aos artistas aos espectadores para que não nos esqueçamos pois é preciso fazer amor com ele e assim espantar as teorizações que só afastam a nossa carne do coração
afinal de contas o teatro -a vida de todo mundo- é um eterno poema ereto
não digam que vocês me adoram
mas façam amor comigo
uma palavra de amor é incolor
mas uma trepada é eloquente
não me escrevam longos poemas
não me contem suas comoções
para provar o quanto me amam
mas sim de tempos em tempos me beijem
e caso me escrevam não digam que vocês me adoram
mas sim vivam em mim de tempos em tempos
pois muitas vezes o coração ignora aquilo que nossas mãos frequentemente escrevem
não deixem morrer nossos sonhos
lembrem-se de tempos em tempos
e a pergunta que se faz é
o que realmente ainda nos resta oferecer aos espectadores
o que realmente ainda nos resta ofere-ser uns aos outros
a urgência de uma memória intraduzível
ou o clímax de uma emoção intransferível
ou a reflexão sobre a nossa existência i-n-f-i-n-i-t-a
a partir dessa indagação e tendo como metonímia o esqueleto do teatro-de-entretenimento esse açougue-music-hall no qual somos convocados para a missão de abastecer vida na vida de inúmeros desconhecidos
é preciso que a iluminação concebida para o espetáculo seja o próprio camelo atravessando o buraco da agulha
paralelamente vale notar o quanto Lagarce se concentra no uso do intransitivo
o verbo é sempre perpétuo e está sempre acima da conjugação-prisão-temporal
ressoa a mesma descoberta de Gertrude Stein
no caso do inglês isso se dá no uso do gerúndio eating human-being seeing-is-believing home-coming thanks-giving some-thing
mas no francês o gerúndio não possui essa mesma natureza é preciso escrever en-train-de-parler en-train-de-vivre que significa estar-no-ato-de-falar estar-no-ato-de-viver
não há como escrever simplesmente falando-vivendo e no inglês o uso do intransitivo to-speak to-live tem uma conotação de algo a ser projetado no futuro
ao contrário do português quando lemos ler-morder-arder pensamos em uma ação contínua-presente
peça peças texto gertrude stein encenação marcio aurelio criação tradução iluminação atuação luiz päetow agradecimentos andré lucena arô ribeiro carlos ferreira catia elena falcon celso frateschi clarissa mastro erica campos fio fernando luiza ollé roberto lage sylvia moreira viviane fuentes duração 70 minutos plateia 45 lugares temporada até 31 de agosto de 2008
Peças é um espetáculo com dramaturgia do ator luiz päetow para texto da artista gertrude stein
Escrito em 1934 esta é a primeira vez em que é encenado no mundo
Ao explorar as diferenças semelhanças e barreiras entre o palco da ficção teatral e o palco do nosso cotidiano
ele nos revela que a mente humana é um teatro de possibilidades simultâneas
que investiga incessantemente a si próprio e aos outros
para recriar a vida e sua comunhão
A obra de gertrude stein impulsiona uma reavaliação de todo julgamento estético vigente
Enquanto muitos artistas saiam pela tangente com uma proliferação de conceitos e regras
ela sempre cantava na contramão
questionando os materiais de construção da gramática humana
soltando faíscas a partir da extração dos pontos de interrogação
alertando para a responsabilidade da sensibilidade
O local escolhido para esta encenação é o espaço ágora
um ambiente perfeito para dinamitar poeticamente os caminhos da vida à arte da ficção à natureza
peça peças texto gertrude stein encenação marcio aurelio criação tradução atuação luiz päetow operação andré lucena administração clarissa mastro agradecimentos erica campos henrique mariano josé eduardo domingues laerte luciana cassas márcia de barros maria firmino mônica raphael senhor ivan silviane ticher zan martins duração 70 minutos plateia 134 lugares
Luiz Päetow
Luiz Päetow
Luiz Päetow
Luiz Päetow
Luiz Päetow
Luiz Päetow
Luiz Päetow
Luiz Päetow
Luiz Päetow
Luiz Päetow
Luiz Päetow
Luiz Päetow
Luiz Päetow
Luiz Päetow
Luiz Päetow
P E Ç A Sé o nome da peça e peço o que a natureza reza. . . . . . .
Marina Abramovic, Denise Stoklos, Robert Wilson, Hélio Oiticica, Edit Kaldor e Bill Viola são alguns dos artistas influenciados por Gertrude Stein, cujo texto considero o marco da performance e que tem nesta a sua primeira encenação tanto no Brasil quanto no exterior
Escrito em 1934, como material para uma palestra sobre a relação entre o ato de escrever e o ato de viver, tornou-se imediatamente o detonador das principais vanguardas artísticas no mundo e persiste transformando aqueles que ouvem sua reflexão lúcida, poética e altamente política
Gertrude Stein, tendo sido aluna de medicina e psiquiatria na famosa Hopkins Medical School, já descobria a mutação que se processa tanto no corpo do ator, quando se entrega à apresentação, quanto no corpo dos espectadores
Um fato muito semelhante à transferência celular que ocorre nos rituais xamânicos, que, aliás, se processam como um monólogo, onde o pajé-ator constrói um canto-texto que reacende a essência de cada membro-espectador à sua própria, sem que precise contar histórias
. . . . . . . já que já há jazigos de histórias
O teatro deve assegurar ao cidadão o direito a esta atividade tão essencial A meta é amalgamar metrópole e pólen
GERTRUDE STEIN Nascendo no dia 3 de fevereiro de 1874 em Allegheny, EUA
Autora de uma biografia inigualável, partindo de uma vivência precocemente órfã e de uma infância praticamente nômade, fruto de uma família de imigrantes alemães lançados aos Estados Unidos em plena era vitoriana, vivendo na Áustria França e Inglaterra, antes de se estabelecerem no estado norte-americano da Pennsylvania
Ao ingressar nos cursos de psicologia e filosofia na Universidade de Harvard, encontra seu grande mentor, o professor doutor William James, um verdadeiro dínamo pesquisando o cérebro humano enquanto processador de linguagens, revelando os mecanismos da nossa emoção através da adrenalina, inaugurando as investigações de experiências místicas adquiridas graças ao peiote e a diversos nitratos, construindo as bases do pragmaticismo de Charles Sanders Peirce e irmão mais velho do grande escritor Henry James
Explorando códigos seus, decide abandonar a América para se aprofundar nos estudos de prosa elisabetana em Londres e, logo depois, enraíza-se definitivamente no ímã cultural de Paris, magnetizando um extenso círculo ao seu redor, exercendo inclusive a função de tutora artística, alavancando a carreira de Pablo Picasso, Juan Gris, Ernest Hemingway, Marcel Duchamp, Henri Matisse, entre tantos e tantos e tantos e tantos e tantos e tantos e tantos outros que se reuniram no seu mitológico apartamento localizado no número 27 da rue de Fleurus e que foram promovidos pelo seu espírito
Para termos uma idéia da abrangência de sua influência, podemos ressaltar o futuro escritor Paul Bowles, então um prodigioso rapaz de vinte anos de idade que foi estimulado por ela a fincar residência em Marrocos, um episódio semelhante à decisiva carta de Helena Blavatsky aconselhando Gandhi a finalizar os estudos em Londres e retornar à Índia, pois, mais adiante, Paul Bowles iria introduzir a rota psicomarroquina a Allen Ginsberg e William Burroughs, emoldurando assim o tapa na pantera, no elejohnfante, no jaguar dos beatniks
Gertrude Stein foi ainda motorista de uma ambulância durante a Primeira Guerra Mundial e se eternizou também graças ao seu casamento com Alice Babette Toklas
Em virtude desses e de tantos outros eventos, foi se perpetuando um interesse maior pelo pitoresco, folclórico, lendário de sua biografia, do que pela poética revolucionária, visionária de sua grafia
Uma gigantesca produção literária abrangendo poemas, ensaios, novelas, memórias, libretos, retratos, um livro para crianças, um livro policial e um romance de quase mil páginas intitulado The Making of Americans
Desenvolveu uma escritura que margeia o mantra e outros cantos encantatórios, se assemelhando ao cubismo
Em 1913, começou a escrever também para o teatro
Sua fértil produção dramatúrgica atingiria 80 peças no ano de 1946 com A Mãe de Todos Nós
Inaugurou uma estrutura, ousada na metalinguagem e revolucionária na fluidez, tão à frente de seu tempo, que a primeira encenação de uma de suas obras levou 20 anos para se realizar
Trata-se da lendária produção nova-iorquina de Quatro Santos Em Três Atos, em 1933
Um verdadeiro triunfo
Com Peças, prova que a nossa mente é um teatro de possibilidades simultâneas que investiga a si e aos espectadores para recriar a emoção
O espetáculo-solo joga com o ator saltando de ensaísta para intérprete da arte para ser humano
O texto só foi publicado, postumamente, no volume Last Operas and Plays e, recentemente, no livro Look at me and here I am
Durante sua pesquisa, chegou a criar peças cujos protagonistas poderiam ser cidades, religiões, montanhas e até os próprios atos e cenas
Em Doutor Faustus Liga a Luz de 1938, os diálogos se alternam com um ballet de luzes e um cão que só diz obrigado
Ela anteviu que, de fato, tudo pode vir a ser teatro
Absorvia tudo à sua volta e transformava em texto
Utilizava o movimento dos automóveis nas ruas para criar o ritmo exato de um monólogo interior
Seu jogo hipnótico de monossílabos, assonâncias, repetições e ausência de pontuação, é hoje considerado precursor do ritmo frenético dos rappers
Basta compararmos sua obra musical Quatro Santos Em Três Atos com a estrutura dos versos criada pelo mestre de cerimônias Tupac Shakur
E é ainda mais surpreendente encontrar, na dramaturgia do encenador Robert Wilson, a mesma escrita mântrica-mental qual assina com seu parceiro Christopher Knowles, o ilustre autista que compõe textos repletos de paralelismos, recurso presente também no canto dos pajés
O que dizer, então, da ligação direta entre a concepção dramatúrgica de uma peça-paisagem, formulada por Gertrude Stein no próprio texto Peças, e a peça de Heiner Müller intitulada Descrição de uma Paisagem, que põe à prova seu fluxo de consciência em meio à imobilidade dramática
Exerceu também um papel fundamental na dramaturgia beckettiana, vide seus versos isossilábicos de Esperando Godot e seu lessness em Dias Felizes
Gertrude Stein impulsionou incessantemente uma reavaliação de todo julgamento estético vigente
Numa época em que a maior parte saía pela tangente com conceitos pseudometafísicos ou pseudoascéticos, ela cantava na contramão, questionando os materiais de construção da gramática humana, soltando faíscas a partir da extração dos pontos de interrogação, alertando para a responsabilidade da sensibilidade
Paralelamente, anteviu o boom dos blogs, da internet, profetizando em uma entrevista de rádio registrada no inverno de 1934, haverá um dia em que cada um e todos terão suas vidas escritas e acessadas por todos a cada segundo, todo mundo que já viveu ou vive ou vi verá certo dia em que haverá uma história ordenada de todo mundo, aos poucos cada um virá a um reconhecimento ordenado
Já nos habituamos tanto a suportar o concreto e o cimento, justo eles que deveriam servir para nosso suporte, que esquecemos o conhecimento das coisas, e as coisas estão em todo lugar, através da arte adquirimos a qualidade de criadoores das portas do lugar que habitamos
Gertrude Stein, unindo as cortinas no dia 27 de julho de 1946, em Paris
Sua saúde havia sido, silenciosamente, insaudada durante os anos de isolamento em que driblou a perseguição nazista, se refugiando em uma casa abandonada ao interior da França
Análise da pesquisadora Naira Hofmeister publicada no Jornal JÁ de Porto Alegre em 15/09/2006
PEÇAS É TEATRO ÀS AVESSAS Luiz Päetow explica e questiona a dramaturgia
Ao invés do teatro, um armazém do Cais do Porto. Ao invés do público em frente ao palco, cadeiras espalhadas em volta do espaço cênico. Os bastidores teatrais fazem parte da composição de Peças, em que cordas, roldanas e sistema de iluminação estão aparentes e se misturam à platéia.
A cortina também foi substituída: ao soar da terceira campainha, uma porta de ferro se abre. Tendo o rio Guaíba ao fundo, numa bela noite iluminada pelos raios da tempestade que estava por vir, Luiz Päetow entra em cena: movimentos que lembram uma câmera lenta, braços e pernas movendo-se numa vagarosa sincronia. A boca, entretanto, não se mexe antes que chegue ao centro do improvisado palco. O único som presente é o de uma voz feminina, que sai do aparelho portátil instalado num canto.
Päetow caminha até o aparelho, e ainda com movimentos lentos, faz parar o fluxo de palavras em inglês. Retorna ao centro do espaço cênico, anuncia, com voz solene: “Peças, de Gertrude Stein” e volta a ficar imóvel por alguns segundos.
De repente, um sobressalto do ator prega um susto na platéia. “Descobri algo sobre Peças”, diz Päetow. E segue dizendo seu texto, um ensaio da autora norte-americana, musa de artistas europeus como Picasso e James Joyce, amiga da família de Matisse e freqüentadora do núcleo de intelectuais vanguardistas do início do século XX, na Europa.
O tratado de Stein “Peças” credita ao Jazz a invenção do nervosismo que se cria entre a platéia e o ator, no momento da apresentação. Essa apreensão, diz Stein, é resultado da falta de sincronia temporal entre público e espetáculo. “O sentimento do público está sempre à frente ou atrás do sentimento de quem está no palco”.
Não é fácil prestar atenção às deixas de Päetow: o texto é complexo, frio e lembra os escritos de filosofia da linguagem, em que o significado das palavras pode ser modificado por quem o recebe. O ator alterna sua interpretação durante todo o espetáculo. Às vezes segue no ritmo lento, aquele com que começou a apresentação. Ora atinge uma rara intensidade de emoções, gritando, se mexendo sem parar e falando velozmente num fluxo de consciência.
Päetow segue enumerando as diferenças entre a atuação no real, no cotidiano, aquela em que cada um é protagonista, e o teatro, onde a platéia é apenas observadora dos fatos. Além do tempo, das emoções, Stein ainda oferece um pensamento sobre os efeitos de alívio ou de arremate que esses antagonismos provocam em quem vivencia o teatro ou a realidade. O ator também questiona os sentidos, o momento certo para assistir a um espetáculo ou aqueles para apenas ouvir o que está sendo dito. Dessa forma, o texto também acaba discutindo a memória e a percepção do espectador.
Sem pretensão de conceituar ou determinar coisa alguma, Peças segue questionando “o que realmente conhecemos” sobre o mundo, sobre a vida, o que, afinal, é a matéria-prima do teatro. Ao final do espetáculo, sob meia-luz, calmo e tranqüilo, conclui Päetow: “E então isso é somente até o presente tudo o que sei sobre Peças", e sai a caminhar pela beira do Guaíba, apanhando as gotas de chuva que começam a cair.
Trecho da matéria publicada em 19/09/2006 no Caderno de Cultura do jornal uruguaio La República21 pelo jornalista Jorge Arias
SHAKESPEARE, GERTRUDE STEIN Y OTROS AUTORES Sigue la fiesta teatral en Porto Alegre
La prosa de Gertrude Stein es muy apreciada por la crítica literaria. El texto es altamente especulativo y referente al teatro, que el intrépido actor Luiz Päetow trata de parar sobre las tablas. El resultado, el mejor de los casos, es una animada lectura de Stein; anotamos que a menudo el actor, con la dicción, emplea volúmenes de voz que concuerdan claramente con lo que dice. Como a Stein, se lo puede admirar.
Peças, de Gertrude Stein, por Luiz Päetow, en Armazem "A" dos Cais do porto (muelles del puerto).
imagens do fotógrafo Jorge Etecheber
Artigo publicado pela Central de Imprensa do Festival Teatro Solo : a plateia como companhia
Quase um segredo dito ao pé do ouvido. Uma energia que emana de uma só criatura e ultrapassa os sentidos para fixar-se na alma de cada espectador. Um trabalho solo é uma confissão que extrapola o espaço, o palco, o teatro, para, com palavras ou não, transmitir uma mensagem, um sentimento, um ponto de vista.
Em 2006, permeado por sua investigação em busca de um novo teatro, ou mesmo de um não-teatro, o FIT traz ao público alguns trabalhos solo: “Diário de Um Louco”, de Livio Tragtenberg, “Peças”, de Luiz Päetow, “A Noite Antes da Floresta”, de Francisco Medeiros, “Sopro”, da Cia Lume.
O processo de construção dos espetáculos solo somam meses e, muitas vezes, anos de preparação do ator, desde a escolha do tema e o estudo, até a divisão da idéia com outros colaboradores como diretor, figurinista e técnicos. “A montagem de ‘Peças’ durou cinco anos. Isso desde a primeira leitura do texto de Gertrude Stein (autora que inspirou a montagem) que precisou ser traduzido, até a pesquisa e a procura de outros profissionais que se identificassem com a proposta de encenação”, comenta o ator Luiz Päetow.
Fora o tempo de criação, Päetow do “Peças”, conta que encontrou dificuldades em fazer do texto de Stein um espetáculo para ser apresentado em grupo. “Houve uma grande identificação minha com o texto, uma paixão individual, desde o primeiro momento. A princípio a idéia era fazer um espetáculo teatral em grupo, mas foi difícil viabilizar o projeto de outra maneira que não fosse um monólogo. Muitas pessoas ficavam desconfiadas com este tipo de texto, pois parece uma tese, uma palestra e achavam que não teria como ser decodificado em uma linguagem teatral que não a do teatro solo”, comenta o ator.
Análise escrita por Antonio Barreto Hildebrando (crítico de teatro de Belo Horizonte) por ocasião do FIT Rio Preto 2006 “Peças” Luiz Päetow São Paulo / SP
1ª HIPÓTESE: Imagine que você adora carros e motores, cheiro de óleo, gasolina, bielas e cremaleiras. Você ficaria em uma oficina, sentado tranqüilamente em uma pilha de pneus, durante 55 minutos, vendo um mecânico – criterioso, concentrado e perfeccionista – trabalhar?
2ª HIPÓTESE: Imagine que você adora teatro, sente-se em casa entre pernas, bambolinas e refletores. Você ficaria em um palco, sentado tranqüilamente em um banco de frente para a platéia, durante 55 minutos, vendo um ator – criterioso, concentrado e perfeccionista – trabalhar?
Creio que, em ambos os casos, a resposta seria SIM. Para o indivíduo da segunda hipótese, “Peças”, solo de Luiz Päetow , é um presente.
Radical, sem concessões, o espetáculo reterritorializa o texto de Gertrude Stein, que, na letra fria, antigo, rejuvenesce na cena pela voz firme e avessa a recursos fáceis do ator que se põe a seu serviço, corporificando o desejo da autora, ainda buscado por muitos e sintetizado por Marvin Carlson, em seu Teorias do Teatro: “Stein invocava e tentava criar um teatro que fosse ‘atemporal’ ou ‘perpetuamente presente’[...] Esse teatro rejeitava preocupações tradicionais como crise e clímax, começo meio e fim, prefiguração, desenvolvimento de personagens e intriga em favor de um fluxo de existência [...] o espectador não tentará adentrar o mundo emocional de um drama desses, apenas o observará como observaria uma paisagem que estivesse simplesmente diante dos seus olhos.” Assim observei, atento todo o tempo em que o ator, no pequeno espaço emoldurado pela meia abertura da cortina, colocava-se entre mim e as cadeiras vazias da platéia, nem tanto quando ele, movimentando-se por todo o palco, fugia dos limites da moldura. Talvez, como diria Stein: “...me tornei moderadamente conscientemente perturbado pelas coisas sobre as quais se tomba sobre as quais me tombei numa tal extensão que...” Talvez, tenha sido isso. Não tenho certezas. “E então isso é somente até o presente tudo o que sei sobre” “Peças”.
OBS.: Não tenho como e não quero saber de quem foi a infeliz idéia, mas, antes de começar o espetáculo, foi-nos solicitado que não nos retirássemos sem que ele tivesse terminado. Fico imaginando o indivíduo da segunda hipótese, aquele não-amante de carros e motores. Como ele se sentiria se fosse constrangido a passar 55 minutos, sentado sobre uma pilha de pneus em uma oficina, vendo um mecânico trabalhar, por mais criterioso, concentrado e perfeccionista que ele – o mecânico - fosse? Antonio Barreto Hildebrando, agradecemos muito a sua análise que, além de informar ao leitor sobre o grande Marvin Carlson, também realiza o mesmo percurso de Gertrude Stein ao expôr o incômodo proposital que o espetáculo provoca como se fôssemos todos novamente crianças em choque com o código camaleônico do teatro, que é a nossa própria vida. E, quanto à sua observação ao final, aproveito aqui para esclarecer que esta solicitação adotada pelo Teatro Municipal não era de nosso conhecimento e só fui informado desse procedimento através do seu texto acima. Na verdade, parece até um conto surrealista. É assustador pensar que tenham exigido aos espectadores para que ficassem confinados durante o espetáculo. Imagino que a equipe do Teatro deve ter pedido somente que o público aproveitasse para fazer suas necessidades, tais como beber água ou ir ao banheiro, antes de entrar no Teatro. Penso que tenham agido dessa forma com a melhor das intenções, na tentativa de evitar situações semelhantes às que ocorreram durante vários outros espetáculos, em que os espectadores saíam e retornavam à sala e até atendiam chamadas de telefone celular, como aconteceu durante uma sessão da peça "O Assalto" do Teatro Oficina. No entanto, caso tenha ocorrido como você descreveu a cena, tal excesso de zelo se torna a imposição de um Livro Vermelho....... e aí, a nossa Natureza some de vez. Já escrevi um email para Eunice Dumbra, coordenadora das Atividades Formativas do Festival, relatando o episódio.
agradecimentos coordenadoria de eventos culturais do departamento de ciências sociais da universidade federal de são carlos
imagens da apresentação registradas por clarissa mastro
imagens do ensaio registradas por artedivina elisete
Primeira Versão
TEATRO FAAP 25 janeiro a 16 março 2006
O local escolhido é o lado B do palco do Teatro Faap, o espaço oculto atrás da rotunda, onde há as coxias roldanas cordas moitões gornos ganchos, todos organismos que abastecem o urdimento teatral, o suporte do palco se transformando no suporte da peça
Análise escrita pelo crítico Mauro Fernando Mello no seu Blog Rotundahttp://rotunda.zip.net
Com abordagens múltiplas – e resultados variados –, muito se tem escrito sobre o fascínio do teatro, desde apaixonados relatos de quem milita na área até frios compêndios acadêmicos. Em função desse encantamento, a metalinguagem é um dos assuntos mais caros ao teatro. Em cartaz no Teatro Faap, em São Paulo, o espetáculo solo “Peças”, da estadunidense Gertrude Stein (1874-1946), trata desse universo. O texto expõe conceitos em torno da emoção que toma o espectador diante da cena, como “clímax da excitação”, “arremate” e “alívio”, e pergunta sobre a “utilidade de se contar uma história”, questionando a dependência do teatro de uma história bem contada. Assim, instalar a encenação no palco, atrás da cortina, surge mais como uma necessidade que como uma solução. Um dos mais talentosos diretores brasileiros – premiado por “Pólvora e Poesia” (Shell) e “Agreste” (APCA), para citar apenas as mais recentes –, Marcio Aurelio assina a encenação. Como todo espetáculo solo, “Peças” tem no ator seu sustentáculo – neste caso, Luiz Päetow. Ao não se comprometer com o naturalismo, Päetow tem o mérito de não deixar fluir uma atmosfera de conferência enfadonha. Faz uso de vasto repertório gestual combinado com silêncios e alternância de ritmo e de entonações. Subscrita pelo diretor, a iluminação é uma aula sobre como se extrair de meia dúzia de lâmpadas nuances do jogo claro-penumbra-escuro. Longe, porém, de se sobressair ao ator, a luz o apóia, proporcionando-lhe mais subsídios para trabalhar.
imagem registrada por clarissa mastro da performance realizada na inauguração do Teatro SESC Santana em outubro 2005
primeira temporada nos meses de janeiro e fevereiro no Teatro Sesc-Anchieta
segunda temporada em maio e junho no Teatro Eva Herz
terceira temporada em junho e agosto no Teatro Oficina
apresentações no Festival Internacional de Teatro de São José do Rio Preto SP - Festival Internacional de Brasília DF - Festival Nacional de Vitória ES - Teatro Sesc Campinas SP
atuação dramaturgia iluminação produção direção
indicado ao prêmio Shell na Categoria Especial pela sua concepção e pesquisa
Teatro Faap - Teatro Oficina - Biblioteca Pública de São Carlos - Teatro Paidéia - Teatro Municipal de SJ Rio Preto - Armazém no Cais do Porto em Porto Alegre
Temporada de quarta a quinta em janeiro fevereiro março SP abril São Carlos maio SP julho FIT São José do Rio Preto setembro FIT Porto Alegre em Cena
Prólogo dos 7 minutos da vogal a abrindo apresentação dos 90 minutos em ensaio aberto a partir da palestra de 1936 intitulada o que são obras-primas e do estudo intitulado automatismo motor normal escrito por gertrude stein e publicado na revista psychological review em 1896 e materiais adicionais do poeta e filósofo ralph waldo emerson decisivos na formação de william james e gertrude stein
Única apresentação em novembro na terceira noite do ciclo gertrude stein
Ensaio aberto vocalização de 1 hora poética teatral incluindo um prólogo extático de 5 minutos estáticos na inauguração em outubro do teatro sesc santana
Interinvenção de 3 horas no bosque coruja com lago escarificação investigada pelos videoartistas Marilia Halla e Osvaldo Santana a pedido do encenador Frank Castorf do Volksbühne para o evento de estreia em setembro do espetáculo baseado em Crime e Castigo
criação atuação
hollowcost
de Fiodor Dostoievski
Monumento ao holocausto BERLIM
Interinvenção de 40 minutos de fricção documental moonumentos versus monolito documentada pelos videoartistas Marilia Halla e Osvaldo Santana a pedido do encenador Frank Castorf do Volksbühne para o evento de estreia em setembro do espetáculo baseado em Crime e Castigo
criação atuação
os sertões ( a terra o homem I o homem II a luta I )
de Euclides da Cunha
Encenação musical pelo Teatro Oficina de Zé Celso e leitura encenada d´A Luta II : Os Últimos Dias com o ator Martin Wuttke
Interinvenção de 50 minutos nas residências próximas à praça benedito calixto com a distribuição anônima de 14 fitas de vídeo contendo trechos de filmes antigos colocadas silenciosamente à porta das casas no meio da grande noite chuvosa abril
criação atuação
2001
la voix
de Arthur Rimbaud
Interinvenção nas 7 primeiras noites do ano com duração aproximada de 100 minutos por noite nas cinco esquinas da rue mouffetard em paris percorrendo a obra poética de Arthur Rimbaud incluindo o texto em prosa Os Desertos do Amor
criação atuação
2000
la foi
Interinvenção de 72 horas e 49 minutos sem passaporte absolutamente cem outubro nada nem dentro nem fora paris place saint germain
destruição
a rainha das fadas
ópera de Henry Purcell baseada em Sonho de Uma Noite de Verão de William Shakespeare
regência de Emiliano Patarra com Orquestra de Câmara L'Estro Armonico e Orquestra de Cordas SESC
lançamento do projeto em São Paulo com as apresentações ao público de várias dramaturgias inéditas sob o título CPT-Aberto
coordenação Antunes Filho
Sesc Consolação
temporada aos sábados no mês de agosto
criação direção atuação dramaturgias Passageiros com Gabriela Flores Debaixo da Ponte com Sílvia Lourenço e Cem Concerto com Daniella Nefussi personagens Erik e Alan e Ivan
30 anos esta noite ( relembrando os festivais de MPB )
direção geral Augusto Francisco
Anfiteatro Camargo Guarnieri - TUSP - Centro Cultural São Paulo e campi da USP no interior de São Paulo
temporadas em outubro 1996 e de sexta a domingo em março abril maio e setembro1997
diversos personagens
à margem da vida
de Tennessee Williams
direção Odavlas Petti
Teatro - Sala Preta
temporada de terça a domingo em junho
personagem Tom Wingfield
1995
demências precóccix
direção concepção Luiz Damasceno
Teatro - Sala Preta
temporada de quinta a domingo em novembro
diversos personagens
elo pesado pesadelo
Performance de 34 minutos setembro no teatro sala preta
Piso forrado papel higiênico branco uma mesa branca central sete pratos fundos brancos cheios d´água tufos espessos de pelagem canina preta imersos y a audição simultânea da contagem das estrelas afogando em números repetidos ininterruptamente diante diamante Damasceno
criação atuação
marat / sade
de Peter Weiss
direção Francisco Medeiros
Teatro Laboratório - Sala Alfredo Mesquita
temporada de quarta a domingo em julho e agosto
personagem Enfermeiro
Escrito por jqz às 10h00
1994
vestido de noiva
tragédia de Nelson Rodrigues
direção Daniela Elyseu sob orientação do prof dr Fausto Fuser ECA / USP
Teatro Cultura Inglesa
temporada de sexta a domingo em novembro
personagem Pedro
um homem & uma mulher no cinema de todos os tempos